-Você não olha nos olhos quando conversa. – fui supreendido certa vez.
-Como assim? Esta é minha maior preocupação quando converso com alguém, pois me sinto inseguro, tenho medo de não entender e de não dar atenção ao que me dizem...
-Você olha nos olhos quando ouve. Quando fala, você olha para baixo, para todos os lados, menos para os olhos da pessoa com quem você está falando.
Sempre que converso com alguém me pergunto: Entendo o que esta pessoa quer me dizer? Será que eu quero entender o que ela quer me dizer? Me preocupo com ela e com suas ansiedades? Ou será que estou surdo ao que ela me diz e apenas preocupado em rotular o que é dito? Será ainda que vejo-a como um espelho e o que invariavelmente critico são meros reflexos de minhas características negativas, de meus fantasmas? Minha ansiedade transparece na minha obsessão por olhar nos olhos das pessoas enquanto converso.
-Como assim? Esta é minha maior preocupação quando converso com alguém, pois me sinto inseguro, tenho medo de não entender e de não dar atenção ao que me dizem...
-Você olha nos olhos quando ouve. Quando fala, você olha para baixo, para todos os lados, menos para os olhos da pessoa com quem você está falando.
Sempre que converso com alguém me pergunto: Entendo o que esta pessoa quer me dizer? Será que eu quero entender o que ela quer me dizer? Me preocupo com ela e com suas ansiedades? Ou será que estou surdo ao que ela me diz e apenas preocupado em rotular o que é dito? Será ainda que vejo-a como um espelho e o que invariavelmente critico são meros reflexos de minhas características negativas, de meus fantasmas? Minha ansiedade transparece na minha obsessão por olhar nos olhos das pessoas enquanto converso.
Mas percebi: o que foi dito sobre mim era verdade e isto me desmontou, percebi então que minha preocupação em dar atenção às pessoas para tentar entendê-las nada valeria se eu não soubesse orientar minhas ações de acordo com a mensagem que desejo transmitir.
“Você desfoca, sai do tom
Se perde e não vê
Que a confusão começa
Dentro de Você!”
Geralmente meus semestres são acompanhados por alguma trilha sonora, músicas que me dizem “algo” relacionado ao que vivo, às vezes expressas nas letras, ou que sinto nas melodias. O pequeno trecho da música Você, interpretada pelo grupo Chicas, mostrou-me uma nova perspectiva para observar minha vida, dentro da qual ainda estou perdido.
Em outras leituras Hannah Arendt implodiu minhas pretensões de concertar os defeitos da humanidade e me alertou sobre a ilusão de caminhar com a história nas mãos. Com ela aprendi que o conhecimento não tem qualquer essência, e que ele pode matar a Vida se seu uso não for guiado pela capacidade humana de estar atento a tudo que esteja ao alcance de nossos sentidos, e que perante o horizonte da morte, a condição humana, as pessoas devem se preocupar sim em significar para si com elas mesmas, num diálogo interno, as impressões que guardam do mundo, mas não podem deixar de retornar sua atenção e seu sentidos para convívio com o outro, a comunidade, devem estar atentas umas às outras, em sintonia. Devem acolher e serem acolhidas para juntas em suas ações construírem o belo, o bom, construírem seus desejos enquanto fruem suas efêmeras vidas.
“Você desfoca, sai do tom
Se perde e não vê
Que a confusão começa
Dentro de Você!”
Geralmente meus semestres são acompanhados por alguma trilha sonora, músicas que me dizem “algo” relacionado ao que vivo, às vezes expressas nas letras, ou que sinto nas melodias. O pequeno trecho da música Você, interpretada pelo grupo Chicas, mostrou-me uma nova perspectiva para observar minha vida, dentro da qual ainda estou perdido.
Em outras leituras Hannah Arendt implodiu minhas pretensões de concertar os defeitos da humanidade e me alertou sobre a ilusão de caminhar com a história nas mãos. Com ela aprendi que o conhecimento não tem qualquer essência, e que ele pode matar a Vida se seu uso não for guiado pela capacidade humana de estar atento a tudo que esteja ao alcance de nossos sentidos, e que perante o horizonte da morte, a condição humana, as pessoas devem se preocupar sim em significar para si com elas mesmas, num diálogo interno, as impressões que guardam do mundo, mas não podem deixar de retornar sua atenção e seu sentidos para convívio com o outro, a comunidade, devem estar atentas umas às outras, em sintonia. Devem acolher e serem acolhidas para juntas em suas ações construírem o belo, o bom, construírem seus desejos enquanto fruem suas efêmeras vidas.
Mas sinto um abismo entre o que aprendi e aprendo das lições que tomei e a minha vida cotidiana, e me pergunto já há um bom tempo “Que diferença há entre aprender e viver? E como, ciente do que desejo para mim, faço para transformar minha vida? Como internalizo nas minhas ações e nos meus afetos o que aprendo pela cognição?” Nestas questões percebo as reminiscências de minhas ânsias logocêntricas, pois elas denotam o desejo de transformar a vida através do conhecimento.
Guardo ainda o desejo de utilizar o conhecimento para tentar entender minha vida. E para desvendar o Outro que me angustia: as pessoas com quem converso todos os dias, meus parentes, amigos ou pessoas de quem sequer sei o nome, mas com quem divido espaços do cotidiano, com quem tenho dificuldades em conviver. As lições de Hannah deixaram em mim o desejo de estar em sintonia com as pessoas com quem convivo.
Mas a observação que minha amiga fez sobre o meu olhar revelou que minhas ações são falhas, elas não expressam meu desejo de proximidade. Tão importantes para eu me entender com os outros quanto minha disposição em acolhê-los são minhas ações, preciso comunicar minhas intenções, ou permanecerei encerrado em minhas abstrações e desejos.
Numa festa uma outra amiga me disse algo que também me abalou:
-Gostávamos de você, mas você era fechado, não dava uma abertura para que a gente se aproximasse.
A amiga em questão é da minha “turma” ou seja, entrou na faculdade no mesmo ano que eu, assim estudamos “juntos” há cinco anos, mas escrevo juntos entre aspas, por que apenas dividimos os espaços da faculdade, pois foram poucas as oportunidades em que conversamos, e ela se referia ao seu grupo de amigos mais afins, com quem eu conversava e também sentia afinidades, mas sem conseguir me aproximar.
Numa festa uma outra amiga me disse algo que também me abalou:
-Gostávamos de você, mas você era fechado, não dava uma abertura para que a gente se aproximasse.
A amiga em questão é da minha “turma” ou seja, entrou na faculdade no mesmo ano que eu, assim estudamos “juntos” há cinco anos, mas escrevo juntos entre aspas, por que apenas dividimos os espaços da faculdade, pois foram poucas as oportunidades em que conversamos, e ela se referia ao seu grupo de amigos mais afins, com quem eu conversava e também sentia afinidades, mas sem conseguir me aproximar.
Parei para pensar no que ela me disse. Fiquei arrependido de muitas de minhas ações (ou omissões) nestes cinco anos, as pessoas que deixei de conhecer, com quem deixei de conviver nestes anos de faculdade devido a um receio para o qual não encontro justificativas, si apenas que ele está ali, sempre a espreita, e influencia minhas ações. Agora lamento sobre o tempo perdido, agora que estou próximo da saída da faculdade, mas só agora percebo que a falha é minha.
Com estas duas amigas e com Hannah Arendt pude aprender mais uma lição: que a maneira como se dá o acolhimento e a partilha da realidade entre aquela comunidade de pessoas unidas pela efemeridade fenomênica da vida humana é a atuação em um Palco comum a todos que estão vivos. Hannah escreveu que Ser e Aparência coincidem, que mera existência implica na capacidade de aparecer e perceber a aparência.
As pessoas contracenam e a vida do espetáculo depende da capacidade de Pensar de cada ator, ou seja, da capacidade de agir de maneira que o outro perceba sua intenção e de perceber a intenção do outro para a manutenção da sintonia. A dinâmica do espetáculo da Vida é o constante exercício de interpretação e comunicação entre os atores. A falha na comunicação ou a interpretação ineficiente na expressão dos anseios resulta na perda do senso de realidade, ou seja resulta na morte do espetáculo. Sem diálogo e troca as pessoas tornam-se mônodas belicosas e assombradas por medos fantasiosos.
[...]
27 de Novembro de 2008
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