Estou aqui
sentado
no lugar de sempre
com meus livros espalhados sobre a mesa
Você passa
olha
e reclama
(mais uma vez você reclama)
Há algumas anotações no meu caderno
(também há revistas sobre a mesa)
me pergunto se estas palavras
servirão para alguma coisa
Você está de costas pra mim
(fazendo as coisas de sempre)
e
reinicia aquela mesma ladainha
inútil
Desta vez tentarei não dar atenção
(vou ler, desenhar)
já decorei tuas palavras
todas elas - e na ordem em que são ditas
os erros de português
as expressões erradas.
Eu te acho burra
já lhe disse muitas vezes.
Você nunca entende nada,
não dá a mínima importância
pro que faço aqui
sentado nessa cadeira.
Preocupa-se apenas em
"organizar"
aquele monte de tranqueiras
da "nossa casa"
-Você vai morrer um dia e
aquela porcariada toda
continuará lá,
do mesmo jeito.
Como se você nunca tivesse existido...
Não me lembro de alguma vez
você ter me perguntado se eu estava bem...
(também nunca perguntei se você estava bem,
é verdade)
Não sei se você lerá isto algum dia,
e se ler,
não sei se você vai entender
(porque você é burra)
"Você acha que a vida é ficar aí lendo?"
Você foi burra por ter casado
com alguém que nunca te valorizou
(não percebeu isso na época)
burra por ter tido um filho
(e de novo, e de novo, pelos que vieram depois)
Devia ter pensado nas consequências ANTES
Você continua falando, falando...
(Porque é tão difícil manter o silêncio?)
De que me importa
se você não aguenta mais
a vida que tem?
De estar cansada de fazer sempre
as mesmas coisas
todo dia
Não quero ouvir nada
quero me concentrar aqui
nesse texto cujo assunto
nem lembro mais qual era...
Por que hoje, não quero gritar com você
Não quero ceder a toda essa sensação
de impotência por estar sentado
à mesa tomada por livros amontoados
Me iludindo
achando que de fato
estou fazendo algo útil
enquanto o tempo corre e
permaneço dependente
de você
Hoje não quero me descontrolar
não quero gritar todas aquelas palavras feias
que você já ouviu saírem da minha boca muitas vezes
(Também quero poupar os vizinhos, é verdade...)
Não quero gritar com você porque você é burra
e não entende porque estou aqui
nessa mesa
em meio a essa bagunça
Você não vê que estou amarrado a essa mesa?
(pelo menos é o que acho...)
Você é burra por que se sacrifica demais.
Será que depois destes anos terríveis...
Nestes anos todos
me escondi atrás dos livros
empilhados na mesa
(fingia desvendar as "palavras difíceis")
Por isto pude me armar e
dizer que você é burra
De que outro modo poderia me defender de alguém que diz:
"Durmo tranquila porque sei que não fiz nada de errado.
E não tenho peso nenhum na consciência nem guardo mágoa de niguém"
Afinal,
é fácil apontar o dedo
e dizer
-A culpa é sua!
(isso vale pra nós dois)
Você dá importância alguma pros meus livros, não é?
Tá certo,
você nunca precisou deles pra viver...
(nem pra me ajudar a viver)
Engraçado que alguns dos livros dizem
que eles mesmos -os livros
não têm importância
Puxa,
você estava certa...
(mais uma vez)
E agora?
quinta-feira, 25 de março de 2010
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