segunda-feira, 12 de abril de 2010

“Odeio ser eu!”
Essa afirmação me invade de modo freqüente há sei lá quantos anos. Quando menos espero:
“eu Odeio ser EU”
E mais uma vez começo a pensar nas fantasias tolas que me ocupam. E mais uma vez
“Odeio ser EU”
Porque me sinto imóvel enquanto o tempo arranca meus pedaços na imperfeita renovação do meu corpo: cada célula é uma cópia mal feita que se reproduz cada vez mais deformada até morte.
Por isso “eu odeio ser eu” A cada instante que me dou conta de que EU observo mundo através de meus olhos estragados pelo cerotocone que dia a dia se torna mais acentuado... Uma pirâmide na topografia de cada olho. Será que ficarei cego?
E me odeio cada vez mais enquanto escrevo estas eternas repetições. Tenho uma mente ruminante, vejam só! Uma prisão. Ramster de óculos correndo na roda... roda das lembranças de erros e frustrações que giram, giram, giram sempre iguais e distantes enquanto as persigo...
Só resta me odiar mesmo... preso de costas para vida observando as sombras, sombras, eu estou nas sombras... pretensamente inocente, a espera da luz redentora. E eu odeio ser EU porque tudo que sei dizer é que estou de mãos atadas, e mais nada. “oh! minhas mãos estão presas enquanto rolo descida abaixo. Realmente uma condição triste. Estou de mãos atadas enquanto a queda infinita da morte se aproxima. Sim, não conseguirei soltar as mãos para me agarrar à qualquer coisa. Mas sou consciente do meu presente e o que me espera.” Me agarro a isto, a esta ilusão, mas e daí? De que me serve a ilusão de consciência se estou rolando rumo à queda infinita?
“eu Odeio ser EU”
Por que há qualquer coisa que enterra meus pés no medo. O Vôo assim torna-se impossível.
“eu Odeio ser EU”
porque minhas chaves não abrem tranca alguma, muito menos aquelas que me mantém preso à COISA que está dentro de mim e que não me deixa viver. [Julia, esse Sol é mesmo de matar]
“eu Odeio ser EU”
Porque todo tempo lembro das minhas impossibilidades: as que nasceram comigo, as que me empurraram e as que reconstruo dia a dia...
...a música que não sei cantar, meu violoncelo imaginário, o talento que sonhei ter para o desenho... Queria saber desenhar o rosto dELA de todas as maneiras em todas as suas formas, as que já teve e nunca teve, para cobrir todas as paredes do meu quarto e as páginas dos meus cadernos. vÊ-LA surgir das minhas mãos a cada sonho.
...o vôo pelo salão em passos daçados...
...os lugares onde desejava estar, as situações que desejei viver um dia, os sentimentos que sonhei sentir.
... a força que gostaria de ter e que por isto invejo nos outros. Força para simplesmente não estar mais aqui nãofazendo as coisas de sempre.
... a vontade de um dia começar a contar para todos com paixão as coisas que fiz e vivi, no lugar de contar, como faço agora, contar como nãofiz...
Por isto que eu Odeio ser EU... porque nãovivo
“eu Odeio ser EU”
porque repito para mim que eu odeio ser eu, assim como uma dízima periódica daquelas que repetem uma seqüência finita... É assim meu discurso: repetido. Sem graça. Sem aquela coisa mágica de quem escreve bem... assim, cheio de mea-culpa vazia e inútil.

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